Semblante

Cinzenta manhã de inverno
Aguça o cheiro de paz
Traz conforto ao ser
preso atrás dos vitrais
Singular sentimento
Me deprime ao extremo
Nostalgia me domina
Dilacera meu peito
Meu coração agora sangra
Minha alma se despedaça
Num segundo, sou luz resplandecente
No outro, só cinzas da tristeza
Ultra-romantismo crônico
Intrínseco desejo mórbido
O mal-do-século me fez assim
De repente me fecho e morro
Transpiro a solidão dos mortos
Nas sombras caio em devaneio
Moribundo nos braços da Deusa
Minguante e soturno, desvaneço
Sou um estranho dentre os vivos
Uma árvore retorcida pelo tempo
Espírito perdido na névoa
Espectro num cemitério maldito
Sou o choro da criança
O desespero num funeral
Sou o último suspiro
A melancolia fatal
Sou lágrima que escorre
Sou brisa que beija a face
O viajante que não retorna
Sou o semblante da saudade
Transpiro a solidão dos mortos
Do teu olhar ainda lembro
Transpiro a solidão dos mortos
Por que fostes tão cedo?

Inconscientemente Insano

Vejo luzes dançantes
No escuro me sinto só
Protegido pela névoa
Camuflado pelo meu corpo
Busco o sentido
O sentido de tudo
O porquê de cada ato
De cada passo predestinado
Agora vejo-as girando
Não param de girar
A vida passa aos meus olhos
Num piscar do universo
Um insight passa sobre meus pensamentos
Me deixando louco por um segundo
...ou talvez normal
Vejo os extremos quase se tocando
Como num atalho imaginário
O impossível agora
pode ser alcançado
E o improvável se torna inevitável
Sombras invadem minha mente
Demônios riem nas trevas
O confronto é incessante
A vitória é sempre incerta
O magnetismo das forças
traz consigo a eternidade da luta
O momento inoportuno e difícil
proclama o final já esperado
O brilho da espada do guerreiro
não reflete mais
seu olhar imponente
Seu cavalo alado
agora quase morto
descansa ao seu lado
O elmo, antes reluzente
Agora chanfrado de tantas batalhas
Não mais o protege no combate
Sinto a bandeira do inimigo
Fincada em minha alma
O guerreiro está ferido
e a batalha perdida
Volto à realidade insana
E não consigo mais pensar
Mas percebo agora
o sentido dessas linhas
No decorrer da vida
a guerra seguirá
Só espero ao fim dela
conseguir achar
a razão... o objetivo
que me trouxe até aqui
Que me fez, um dia, acreditar
Que me fez, dessa vez...
à sanidade voltar

Abstrata Simetria

Lá fora eu sinto a chuva cair
Como algo que estraçalha e fere meu ouvido
A noite não é mais noite
É só um final para o hoje
Não quero provar nada
Só quero sentir-me bem
Não sinto vontade de ser coerente
Só quero me desligar um pouco
Seria algo estranho
Se continuasse
Tudo assim tão...
...negro...
...vermelho
Não consigo mais respirar
Só tento ainda enxergar
Não o caminho
Não a noite
Mas sim o nada,
a escuridão invisível que me segue
Fiz tudo o que podia fazer
Só assim me fortaleço
Mas não consigo viver
Sobrevivo perante o mar
Ilhado, não consigo fugir
Amando muito a tudo e à todos
Não consigo demonstrar o mínimo
Sofro por tal brutalidade de espírito
A melancolia ecoa em minha mente
Como um alerta para o que há de vir
Dos meus poros escorre sangue
Dos meus olhos vê-se o medo
Ao final...
Lembro apenas como é bom
Ser tão insanamente... simétrico
Tão simetricamente... incoerente
Incoerentemente distante.